Há tecnologias que chegam ao debate jurídico como promessa. Outras se impõem como problema. O blockchain pertence às duas categorias. De um lado, apresenta-se como arquitetura de integridade, temporalidade e rastreabilidade, capaz de reorganizar a forma como se documentam fatos, se preservam evidências, se executam obrigações e se estruturam ambientes de confiança. De outro, desafia categorias clássicas do direito, pressiona instituições, desloca a discussão sobre prova e governança e exige do poder público uma postura menos retórica e mais tecnicamente responsável.
Este livro nasce exatamente nesse ponto de tensão. Não se trata de uma obra rendida ao entusiasmo tecnológico, nem de um texto de recusa defensiva diante da inovação. O que o leitor encontrará aqui é um esforço sério de compreensão: compreender a tecnologia para medir seus efeitos jurídicos; compreender os limites do direito para avaliar o que a tecnologia pode ou não pode fazer; e compreender o ambiente institucional brasileiro para distinguir aplicações promissoras de soluções apenas vistosas.
Em tempos de inovação acelerada, o maior risco não é somente o atraso. É também a adesão superficial ao novo. Livros relevantes são justamente os que conseguem atravessar este duplo perigo: nem fechados ao presente, nem fascinados por ele. Esta obra alcança esse equilíbrio.