Este livro nunca foi contra o amor, ele é contra a ingenuidade que se veste de romantismo para parecer nobre, porque quase nunca é o afeto, sozinho, que produz o estrago. O prejuízo nasce do que ficou sem nome, sem registro, sem conversa e sem limite, enquanto todo mundo fingia que perguntar estragaria o encanto, quando perguntar, na verdade, talvez fosse a única chance de preservar alguma coisa dele.E a vida não suspende as consequências só porque a conversa parecia inconveniente. O imóvel continua pertencendo a alguém, o pix deixa rastro, a mensagem permanece, a criança tem direitos, o vídeo segue íntimo, o corpo é de quem o habita, a herança obedece à lei, e aquilo que no começo parecia apenas discrição pode virar, no fim, a parte mais cara da história. O coração esquece; o cartório, não.Por isso, não leve este livro como convite à desconfiança permanente, mas como um treino de lucidez. Amar não exige cegueira, não exige apagamento, não pede a sua senha, não cobra o seu patrimônio, não depende de você renunciar à própria paz nem de provar sentimento se desprotegendo. Quando uma relação só continua de pé porque você se desorganizou inteira para sustentá-la, o problema raramente é o tamanho do seu amor; é o preço que estão tentando fazer você pagar por ele.O que este livro tenta lembrar é que entrega não é desaparecimento, confiança não é ingenuidade e afeto não precisa vir acompanhado de prejuízo, medo ou perda de autonomia.