Há um intervalo curto, em toda transformação tecnológica relevante, entre o momento em que a ferramenta chega às mãos da instituição e o momento em que a instituição percebe que a ferramenta também a transforma. Esse intervalo é, em geral, o tempo em que se decide se a inovação trabalhará a favor do método ou contra ele. A inteligência artificial, na segurança pública e na justiça criminal, vive exatamente esse intervalo. Há entusiasmo, há cautela, há discursos competindo pela palavra final, e há, sobretudo, decisões concretas sendo tomadas todos os dias por delegados, juízes, promotores, peritos e analistas — decisões que afetam liberdade, patrimônio, intimidade e reputação de cidadãos reais.Esta obra nasce dessa percepção. Ela parte da premissa de que a tecnologia não é, por si só, uma promessa nem uma ameaça: é um instrumento cuja legitimidade depende do método que disciplina sua utilização e do regime jurídico que a circunscreve. O leitor encontrará doze capítulos que se complementam. A intenção não foi reunir textos sobre um mesmo assunto, mas construir, a várias mãos, um itinerário de leitura coerente Procuram, em vez disso, oferecer ao leitor um conjunto de bases sólidas para que ele faça, no seu próprio cotidiano profissional, as escolhas que cabem a quem decide, assina e responde.