Há algo que aprendi cedo na atividade policial e que nenhum manual me ensinou de maneira direta: investigar bem não é instinto. É método. É a capacidade de organizar o olhar sobre os fatos de forma disciplinada, de perguntar antes de concluir, de preservar antes de examinar, de questionar a própria hipótese antes de levá-la a juízo. Esse princípio, simples de enunciar e exigente de sustentar na rotina, é o eixo que atravessa cada capítulo desta obra.
A investigação criminal tecnológica, disciplina que concebi em 2015 e que venho desenvolvendo desde então em livros, cursos e formações voltados às carreiras policiais e à comunidade jurídica, não nasceu de uma reflexão acadêmica. Nasceu da repetição de um problema que se apresentava em quase todos os casos que passavam pela minha mesa: a tecnologia havia invadido o crime muito antes de a investigação ter aprendido a lidar com ela. Aparelhos celulares, câmeras de monitoramento, registros de geolocalização, movimentações financeiras digitais e redes sociais tornaram-se fontes de prova em qualquer apuração — e a grande maioria dos investigadores não havia sido formada para extrair dessas fontes o que elas tinham a oferecer.
Este livro é, ao mesmo tempo, uma proposta doutrinária e um instrumento de trabalho.
Cada capítulo foi escrito para ter validade além do momento em que escrevo. Evitei dependência de ferramentas específicas, de modismos tecnológicos passageiros e de discussões marcadamente conjunturais.