Uma luz em meu ouvido, a segunda parte da autobiografia, cobre a vida de Canetti dos dezesseis aos 26 anos — ou seja, de 1921 a 1931 — e pode ser lida como um palpitante e transcendente romance de formação, uma vez que descreve a gênese de um artista e pensador dotado de uma capacidade de percepção fora do comum. O que é incomparável neste volume não é tanto o pano de fundo — a inflação, o assassinato de Rathenau, o levante dos trabalhadores de Viena ou a vida berlinense dos anos 1920 — mas sim o desenvolvimento espiritual de um escritor. Embora Canetti refira-se constantemente a suas leituras, que já na infância haviam desempenhado papel tão importante, e conquanto tenha sido decisiva sua atração pela pintura de Brueghel e de Rembrandt, a verdadeira escola onde se aprende a ver e a ouvir é, para ele, o ser humano.