Este livro retrata parte significativa da violência que é constitutiva da nossa história enquanto país. Penso que é uma obra necessária, pois ela permite que o leitor tenha contato com a gênese de um discurso de ódio e desprezo pelo outro que faz parte da invenção do Brasil e desvela alguns dos limites discursivos que precisamos superar para construir uma sociedade mais justa, solidária e democrática.
Os tempos são sombrios: 2015 deixou claro que ainda permanecemos presos ao ciclo de dominação, violência e exclusão iniciado com a chegada dos europeus. Mais de cinco séculos de história e a civilização permanece como promessa irrealizada: continuamos reiterando a barbárie.
Sem dúvida, a realidade concreta vivida pelos brasileiros ainda está muito distante do projeto delineado pela Constituição Cidadã. Não há exagero algum aqui: em pleno Estado Democrático de Direito, ainda enfrentamos enormes dificuldades para superar os inúmeros obstáculos à concretização da Constituição, particularmente no que diz respeito a quem está fora dos círculos privilegiados nos quais são tomadas as decisões sobre o que vale e não vale e sobre o que pega e não pega. Rotineiramente avançamos um passo e retrocedemos dois: a resiliência do nosso passado colonial parece uma realidade inescapável.
Penso que este livro ajuda a compreender essas questões, uma vez que mostra que todas elas em grande medida remetem a um imaginário autoritário de longa duração que deve ser sepultado ou continuaremos a